O FUTURO MAIS SIMPLES NAS COMUNIDADES ECO-SUSTENTÁVEIS





O celular não pega, é preciso dormir em barraca e quem usa o banheiro seco tem de virar um balde de serragem no vaso sanitário, em vez de puxar a descarga. Ainda assim, a cada feriado, quase 40 pessoas pagam para se isolar no mato a 4 quilômetros da praia Dura, em Ubatuba, no litoral de São Paulo, para fazer um dos cursos do Instituto de Per- macultura e Ecovilas da Mata Atlântica (Ipema).


Findhorn, na Escócia (SameSame Photo)
“Cada vez mais gente nos procura porque está em crise e quer fazer a sua parte para mudar o mundo”, conta o criador do Ipema, Marcelo Bueno, quando o reencontro em Ubatuba, em uma segunda-feira de agosto deste ano. Pesquisador obsessivo de tecnologias de mínimo impacto, Bueno é um sonhador ousado e um realizador radical. Depois de viajar pelo mundo por dois anos e meio e de voltar de uma experiência na comunidade The Farm, no estado americano do Tennessee, em 1999, ele resolveu fazer da própria casa, na praia Brava, um laboratório de sustenta- bilidade. A experiência despertou o interesse de escolas, autoridades e curiosos, inspirando Bue- no a arregimentar sete pessoas para comprar a terra em que funciona, hoje, a base do instituto que criou e de seus experimentos. No futuro, eles pretendem construir suas casas para morar de vez no que será a Ecovila Corcovado.
Implantar uma comunidade ecologicamente responsável não é empreitada fácil – e tenho des- coberto isso nas visitas que faço a esses grupos embrionários desde que comprei, há três anos, com amigos, um sítio em Juquitiba, no interior paulista, com o mesmo sonho de Bueno. Conscientes dessa dificuldade, os responsáveis pelo Ipema aproveitam a disposição de suas populações flutuantes. Nos últimos seis anos viabiliza- ram a construção do abrigo para a turbina que transforma a água do riacho vizinho em energia elétrica, dos filtros naturais que tratam as águas usadas nas pias e da cozinha com um fogão a lenha que aquece a água da chuva captada para ser usada no banho. Todas as práticas ensinadas seguem a cartilha da permacultura, um método de planejamento de assentamentos humanos sus- tentáveis criado pelos australianos Bill Mollison e David Holmgren, na década de 1970, e que conta hoje com mais de 3 mil adeptos no Brasil.

Findhorn, na Escócia (SameSame Photo)
Em seu cotidiano, Bueno mantém uma atitude ecológica exemplar. Ele e os moradores do Ipema geram a energia que consomem, bebem a água da cachoeira do quintal, dão encaminhamento a todos os dejetos e plantam árvores – um dos pro- jetos reflorestou mais de 70 hectares com juçara, uma palmeira ameaçada de extinção, no sistema de agrofloresta. A rotina sem confortos urbanos se assemelha a de nossos avós. Por opção, não há geladeira nem para guardar o leite das duas filhas pequenas de Bueno. Fogão, só a lenha – um sim- ples cafezinho pode demorar uma eternidade.
A mulher dele, a engenheira florestal Cristiana Reis, usa apenas absorventes de pano e nem as fraldas das crianças são descartáveis: tudo é la- vado, sem produtos químicos, na água fria para ser reutilizado. A gordura da cozinha vira sabão. Para não consumir embalagens, só entram na despensa produtos a granel. E acredite: há 11 anos Bueno não coloca nem o lixo não reciclável no caminhão da prefeitura. “Prefiro acumulá-lo para constatar a responsabilidade do meu impac- to no planeta e depois enterrá-lo, como fazemos com o entulho de nossas construções.”
A despeito das aparências, a ideia não é re- cusar as novas tecnologias. “Temos computador, ouço música em um iPod”, conta Cristiana. “Só não queremos ser dependentes de algumas tecnologias.” A única emissão de carbono que Bueno e Cristiana lamentam é a gerada pelo combustível do automóvel. “Se o mundo vivesse um colapso financeiro, eu só teria de me livrar do carro e do plano de saúde”, diz ele. Produzir etanol é uma meta. Esse projeto foi testado ao longo de seis meses de 2010 em outra comunida- de verde, a Visão Futuro, de Porangaba, também no interior paulista. A produção de cana com esse fim, porém, mostrou-se economicamente inviável – ao menos a princípio.

Moeda exclusiva de Findhorn, na Escócia (SameSame Photo)
Com quase 20 anos de existência, a Visão Futuro foi fundada pela americana Susan Andrews e virou um exemplo de sucesso. Só no primeiro semestre deste ano, 750 pessoas passaram por seus 20 cursos. A maior parte da comida lacto-vegetariana (baseada apenas em vegetais e derivados do leite) consumida pelos alunos é tirada daquela terra. Painéis fotovoltaicos aproveitam a luz do sol. Seu maior trunfo, porém, está no fato de tanto os dez moradores quanto os frequentadores compartilharem da mesma busca espiritual, pra- ticando ioga e meditação. Os estudiosos creem que a espiritualidade ajuda esses agrupamentos a se manter unidos e a ficar de fora de uma dura realidade estatística: a que diz que só 10% das iniciativas de ecovilas resistem ao tempo.
o conceito de ecovilas foi definido em 1995, durante um encontro de representantes de diferentes grupos do gênero em Findhorn, ao norte de Edimburgo, capital da Escócia. Passaram a levar esse título apenas os assentamentos que se sustentam no âmbito social, ecológico, econômico e de visão de mundo (que abrange o aspecto espiritual). “Findhorn é pioneira na fusão des- sas quatro vertentes”, conta a brasileira May East, que vive há quase 20 anos na comunidade que nasceu quando três moradores de um trailer em um campo de dunas começaram a atrair curiosos interessados em reproduzir sua plantação de repolhos gigantes. May, então famosa como vo- calista da banda de rock Gang 90, mudou de vida logo depois da Eco-92 – evento no qual atuou como “artivista”, conforme se definia na época. Hoje é coordenadora dos cursos de treinamento em ecovilas, diretora de relações internacionais e representante do grupo nas Nações Unidas – que deu a Findhorn o título de melhor prática de assentamento humano no mundo.

Findhorn, na Escócia (SameSame Photo)
Conheci May East ali mesmo, no último mês de junho, ao participar de um curso chamado Experience Week. Uma semana de imersão na rotina local para forasteiros (muitos deles euro- peus e americanos desiludidos com a crise eco- nômica e buscando alternativas de vida). Como no Ipema, os alunos pagam para trabalhar – no meu caso, as 400 libras que desembolsei me permitiram cuidar do jardim, aspirar o pó do centro de visitantes (mais de 2,5 mil pessoas por ano), lavar as enormes panelas dos jantares cole- tivos e, sim, limpar os banheiros. Findhorn tem hoje uma emissão de carbono que corresponde à metade do Reino Unido. Quatro moinhos de energia eólica demarcam o horizonte do vilarejo de 70 casas (várias com telhados verdes e muito vidro para receber mais luz solar e economizar eletricidade), uma usina de biomassa queima de- jetos orgânicos para gerar aquecimento em dias frios e os tanques de uma engenhoca batizada de Living Machine tratam o esgoto dos moradores. Apesar de ministrar mais de 200 cursos por ano, Findhorn mantém sua longevidade eco- nômica graças também a outros 60 negócios, de editora de livros a hospedarias. Atualmente, 762 pessoas dizem pertencer à comunidade, mas apenas 250 vivem na ecovila. Metade des- ses moradores é de trabalhadores da Fundação Findhorn, que se alternam em diferentes fun- ções, recebem casa compartilhada e comida de graça, além de salário fixo. O contracheque – 200 libras – é idêntico a todos, esteja o morador trabalhando na faxina ou seja ele o listener da vez – uma espécie de “ouvidor” dos problemas internos. O salário é pago na moeda local, o eko, uma nota pequena, semelhante àquelas do jogo Banco Imobiliário, cujo valor equivale ao da libra. E um sistema de troca de roupas e objetos é incentivado para que haja redução no consumo.
Segundo a Rede Global de Ecovilas, existem hoje cerca de 900 comunidades desse tipo no planeta – umas 50 na América Latina. “A grande dificuldade costuma ser o relacionamento”, reco- nhece Sandra Mantelli, que fundou, com o ma- rido Hiroshi, a Ecovila Clareando, em Piracaia, no interior de São Paulo. Cada uma das cinco fa- mílias dali tem espaço e trabalho particulares, só interagindo de vez em quando nas áreas comuns.
Iniciativas parecidas ocorrem na Estância Demétria, em Botucatu, que nasceu, em 1974, como fazenda de produção de legumes e verduras sem agrotóxicos, e provocou uma revolução na cidade paulista ao difundir um maior cuidado com a alimentação. Mais de 100 famílias de simpatizantes foram se acercando da fazenda, criando sete condomínios ecologicamente responsáveis. Boa parte dos vizinhos está afinada com uma filosofia-guia: a antroposofia, criada no início do século 20 pelo austríaco Rudolf Steiner, que aprofunda o estudo das relações do homem com a natureza. A agricultura antroposófica não é chamada de orgânica e sim de biodinâmica, por requerer a rotação de cultivos e o plantio de acor- do com as fases da lua, entre outras diferenças.

A Living Machine, que trata o esgoto de Findhorn, na Escócia (SameSame Photo)
“Nossa proposta não tem a ver com comunis- mo ou marxismo, mas é uma alternativa a esse capitalismo em crise. Estamos buscando forma- tos que garantam a sustentabilidade”, diz Paulo Cabrera, o atual líder da estância, um gaúcho que viveu em quatro comunidades antes de se esta- belecer em Botucatu, em 1986. Na Demétria, ele mescla técnicas de cultivo tradicionais e moder- nas usando matéria-prima e mão de obra locais. Com 24 funcionários, 150 cabeças de gado e uma produção de 15 tipos de laticínio, 12 de geleias e 41 artigos de padaria, a fazenda virou sinônimo de qualidade ao abastecer feiras de produtos sem agrotóxicos, como as que acontecem no Parque da Água Branca, na cidade de São Paulo.
Entre as lições da Demétria para garantir qualidade de vida estão os esforços para que as ruas do bairro não sejam asfaltadas, permitindo a permeabilidade do solo, e que essas vias não ganhem energia elétrica, o que vai assegurar que animais noturnos não sejam espantados e que se possa ver mais estrelas à noite. Televisão é algo que Cabrera não faz questão de ter. “Deve ser por isso que fiz seis filhos com minha mulher”, brinca. Como se vê, também o dia a dia dos moradores da Demétria se assemelha ao dos antepassados, com a predominância de um estilo de vida simples e natural. Cabrera sabe que, assim, seu impacto ambiental vai continuar sendo baixo. “Mas a gente não planta árvores para neutralizar emissão de carbono. Essa é uma visão moderna corretiva”, diz. “Plantamos árvores para perceber a transformação que elas causam nas pessoas. E para que nossas vaquinhas possam descansar à sombra delas e nos dar um bom leite fresco.”


Fonte: http://samesame.com.br/544/544#sthash.Y0Ykt5ub.dpuf

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