ESTAMOS TODOS SURDOS - DAVI KOPENAWA,XAMÃ YANOMANI


Davi Kopenawa, em A queda do céu

Trecho do livro:
“Contudo, muitos são os brancos que continuam ignorando nossas palavras. Mesmo que elas cheguem aos seus ouvidos, seu pensamento continua fechado. Seus filhos e netos talvez as escutem um dia. Então pensarão que são palavras de verdade, claras e direitas. Perceberão como é bela a floresta e entenderão que seus habitantes querem viver nela como seus ancestrais antes deles. Irão se dar conta do fato de que não foram os brancos que a criaram, nem ela nem seus habitantes, e que, uma vez destruídos, seus governos não poderão fazer com que voltem à existência. Se, por fim, os brancos ficassem mais sensatos, meu pensamento poderia recuperar a calma e a alegria. Eu diria a mim mesmo: ‘Que bom! Os brancos acabaram ganhando sabedoria. Eles começam a ter amizade pela floresta, pelos humanos e pelos xapiri’. Minhas viagens acabariam. Eu já teria passado tempo demais longe de casa a discursar para eles e a encher suas peles de papel com o desenho de minhas palavras. Passaria a visitar a terra dos brancos só de vez em quando. Diria então a meus amigos de lá: ‘Parem de me convidar tanto! Quero me tornar espírito e continuar estudando com os xapiri. Só quero adquirir mais conhecimento!’. Então eu me esconderia na floresta com os xamãs mais antigos, para beber o pó de yãkoana até ficar bem magro e esquecer a cidade”.
42987659
https://anedotadasantilhas.wordpress.com/2015/08/22/
davi-kopenawa-e-a-queda-do-ceu/
Estamos todos surdos

Xamã yanomami e um dos mais importantes líderes indígenas do Brasil, Davi Kopenawa expõe sua visão sobre a sociedade dos brancos e faz dura crítica ao modelo econômico vigente, que, segundo ele, ameaça a estabilidade do planeta e a sobrevivência de nossa espécie


Pablo Pires Fernandes

Publicação: 15/01/2016 04:00


“Eu acho que o Brasil é meu. O Brasil é nosso, do povo indígena.” Foi o que Davi Kopenawa respondeu sobre o que ele achava que é o Brasil. Hoje, esse país – que sempre foi usurpado – tem pouco a comemorar no que diz respeito aos direitos dos povos nativos. Depois dos avanços históricos da Constituição de 1988, vários projetos de emenda constitucional (PECs) ameaçam as conquistas legais dessa população para dar lugar a um projeto desenvolvimentista, com sérias consequências para as nações indígenas e para o meio ambiente.

Atualmente, a PEC 215/2000, que retira do Executivo a prerrogativa de demarcar os territórios indígenas e inviabiliza a ampliação dos mesmos, transita nos gabinetes do Congresso em Brasília. Recebeu a aprovação da Comissão Especial de Terras Indígenas, mas críticas unânimes das lideranças indígenas e ambientalistas.

Neste período em que as garantias desses povos estão sob o risco de aviltamento, Kopenawa, um dos mais importantes líderes indígenas do Brasil, lançou A queda do céu – Palavras de um xamã yanomami, escrito em parceria com o etnólogo francês Bruce Albert. O livro é, ao mesmo tempo, um documento inédito sobre a cosmologia yanomami, um relato autobiográfico e um tratado filosófico e ecológico. No prefácio do volume de mais de 700 páginas, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro destaca a oposição feita pela voz de uma minoria pouco ouvida aos padrões sistêmicos da sociedade ocidental e exalta a obra: “É um acontecimento científico incontestável, que levará, suspeito, alguns anos para ser devidamente assimilado pela comunidade antropológica”.

O líder yanomami esteve em Belo Horizonte no fim de 2015, por ocasião da inauguração do pavilhão, no Centro de Arte Contemporânea Inhotim, dedicado ao trabalho de Claudia Andujar, fotógrafa que passou boa parte de sua vida a registrar esta nação amazônica. Na conversa com o Pensar, Kopenawa explicou sua visão de mundo, baseada nos ensinamentos de seus ancestrais e nas visões xamânicas dos xapiri, os espíritos guardiões de seu povo, da floresta e do planeta.

Ao dizer que o Brasil lhe pertence, o xamã explicita muitas questões. Primeiro, evidencia a indagação antropológica essencial sobre o que é o “outro”. Afinal, quem são vocês, brancos invasores e depredadores que chegaram até a nossa terra para questionar o que é o Brasil? fica implícito na resposta direta dada por alguém cujo povo sempre viveu naquele lugar. “Homem branco veio de longe, viajando, e anda brigando por causa da terra e rugindo”, disse. Ao se referir ao homem branco, a palavra que usa é napë, que em yanomami significa inimigo ou forasteiro, mas, ao longo do tempo, ganhou a conotação de “o outro”.

Outra noção contida na resposta de Kopenawa sobre o Brasil é a de terra. Com sentido amplo, denota pertencimento, em oposição a posse. “Quem ensinou a demarcar foi o homem branco.” Para boa parte dos povos indígenas, o lugar onde vivem simplesmente é um conjunto vivo intimamente interligado à sua existência. Sob o olhar yanomami, o conceito de possuir um determinado pedaço de terra ou a ideia de território são delírios, ou, como dizem, surdez ou obscuridade dos que não sabem dialogar com a terra. “O nome certo, o nome original que a gente usa é Maxitari. Ela é a nossa mãe, a terra, ela é que sustenta nosso alimento, nossa saúde, nossa vida, nossa família, o que deixa crescer, que deixa trabalho. O Brasil é uma grande riqueza, é bastante rico. Não é rico de dinheiro, é rico de saúde. Dentro da floresta tem muita coisa boa, tem sabedoria, temos de aprender com ela.”

Kopenawa discorre com tranquila lucidez a respeito da chegada dos portugueses ao que chamamos de Brasil. Diz que, depois de destruir suas florestas e sujar seus rios, os napë “fizeram uma grande reunião para pensar e fazer um grande barco à procura de terra”, destacando que Pedro Álvares Cabral “foi muito inteligente, (pois) sabia que existia a nossa Maxita terra”. “Então, eles trouxeram grandes problemas. Chegaram aqui pobres, só trouxeram seus corpos. E seus corpos são cheios de pensamento à procura de mercadoria, ouro, diamante, petróleo, madeira. Tudo que eles já usaram na própria terra deles. Aqui eles acharam muita riqueza. Então, eles vieram pra enriquecer do nosso Brasil.”

O termo mercadoria, para esse xamã, é associado inequivocadamente ao homem branco e sua visão de mundo. Ele refere-se aos brancos como o “povo da mercadoria”, definição bastante adequada para tempos em que consumir e ostentar se sobrepõem a qualquer noção de coletividade ou bem comum. No livro, não faltam relatos – que não escondem certa perplexidade – sobre seu contato com a dita civilização e como percebeu a lógica do dominador: avareza, ganância e o trato das riquezas naturais como produto a ser comercializado.

Hoje, a crítica que Kopenawa faz ao homem branco e seu modo de vida é filosófica, fruto de sua vivência em meio ao “povo da mercadoria” e de suas muitas viagens como renomado líder indígena. Traz as cicatrizes da história de seu povo e as suas próprias, marcas de tragédias e, desde o primeiro contato, ameaças e medo. Quando criança, ouvia histórias sobre os napë, pois os yanomami tinham contato distante com alguns poucos que se aventuravam a adentrar os rincões da Amazônia. Em entrevista de 1991, ele disse que chorou de medo ao avistá-los. “Eu os achava muito feios, esbranquiçados e peludos. Eles eram tão diferentes que me aterrorizavam”, comentou.

O terror se provou premonitório e justificado. Os primeiros contatos regulares entre brancos e yanomami começaram na década de 1940 e se intensificaram à medida em que a busca por recursos naturais movia o “povo da mercadoria” pelo interior da floresta. Aos 3 anos, em 1959, quando ainda não tinha recebido o nome de Davi Kopenawa – os yanomami determinam os nomes das crianças alguns anos após o nascimento e pronunciá-los em sua presença é ofensivo –, houve uma epidemia de gripe levada pelos brancos. Embora não haja números precisos, é consenso que, somado ao surto de sarampo, ocorrido em 1967, a população yanomami quase foi dizimada.

Kopenawa deixou sua aldeia aos 14 anos, viveu entre os brancos na cidade por muitos anos antes de retornar à terra natal e assumir a luta em defesa de seu povo. Como grande sábio que é, percebeu que deveria guerrear usando as armas do inimigo e estabeleceu várias frentes de ação política. Fundou e preside a Hutukara Associação Yanomami, uma ativa voz e importante articuladora a favor da causa indígena. Inquieto e indignado que é, Kopenawa também decidiu (há anos já tinha se dado conta) que suas palavras deveriam alcançar o maior número de gente possível. Para tal, sua estratégia foi escrever um livro, para o que contou com a parceria empenhada do etnólogo Bruce Albert.

O pesquisador conheceu o yanomami há mais de 30 anos e se dedicou por décadas a compreender o complexo pensamento dessa etnia que vive tanto no Brasil (cerca de 21 mil) como na Venezuela (cerca de 11 mil). Foram 12 anos de entrevistas para reunir o material contido em A queda do céu. No livro, o narrador descreve como o contato com os xapiri, que carregam a visão mitológica do demiurgo Omama, se dá por meio do uso da Yãkoana (pó alucinógeno). Em transe, os xamãs adentram o universo dos espíritos, apreendendo seus ensinamentos e assumindo um papel regulatório do universo, lidando com forças positivas e negativas. Para os yanomami, a regulação dos poderes naturais e humanos dos xamãs inclui a sustentação do céu, que foi separado da terra por Omama no início dos tempos.

Kopenawa explica que a ação do homem branco, sobretudo a exploração desenfreada dos recursos minerais, a destruição das florestas e a poluição dos rios, tem desestabilizado o equilíbrio da terra e do céu, criando o risco de fazê-lo cair, como já ocorreu nos tempos da criação do mundo. Os napë “continuam arrancando a mercadoria da terra, o que aguenta a terra, para não cair”, explica. Segundo ele, Omama escondeu os minerais debaixo da terra, pois causavam doenças no povo. “Para não ficar doente, tem que ser assim, esconder abaixo da terra.” O xamã conta que Omama colocou “primeiro as pedras, depois a areia, depois pedra, depois a terra por cima, depois a floresta, plantaram”. “O nosso povo indígena não estava interessado em usar, porque o criador da terra, ele não permitiu. Não precisa usar (os minérios), precisamos usar o que é bom: roçado, plantar, água limpa, peixe sadio, a floresta bonita e cachoeira bonita, para não ter doença, não ter gripe, não ter sarampo, não ter malária”, detalha.

O discurso de Kopenawa articula uma visão singular de mundo em que expõe a falência do modelo capitalista extrativista ao lidar com os recursos naturais e é um poderoso chamado à conscientização para a destruição do planeta. Aliando mitologia, experiência política e pessoal, o xamã traz aos brancos lições urgentes e de uma sabedoria singular. Na entrevista, ele narrou o mito yanomami de criação da noite e explicou por que o céu corre o risco de desabar sobre nossas cabeças.

E a escuridão se esparramou

No início do mundo, no nascimento desse mundo, não tinha noite, não tinha escuridão. Só tinha dia, só tinha luz do sol. Foi um caçador, neto de Omama, que achou, que descobriu. Ele foi pro mato e escutou a escuridão cantando hmmmmm, hmmmmm, hmmmmm. E o caçador foi andando perto para descobrir. Quando ele chegou perto, ele sentiu vontade de dormir. Aí ele deitou no chão, dormiu meia hora, depois ele levantou de novo e escutou o canto do mutum. O povo yanomami ficava pensando que gente precisava da escuridão porque precisava dela para dormir. Ele não conseguiu matar porque ele estava lá em cima da árvore. E estava escuro e restava o dia inteiro. Aí ele voltou para casa, contou para o pai, para a família e os parentes: ‘Ei, pai, eu vi um bicho cantanto aí, mas ao redor dele era escuro. Eu fui olhar de perto, me deu sono e eu dormi. O que é que é esse bicho cantando? Vamos lá para ver?’ Aí eles pegaram 10 pessoas e foram atrás. Eles levaram pau para fazer fogo, porque naquele tempo não tinha fósforo, só tinha talo de cacau para fazer fogo, levaram para fazer luz. Andaram mais ou menos uma hora a pé. Aí eles escutaram o canto do mutum: ‘hmmmmm, hmmmmm, hmmmmm’. Foram até lá, chegaram perto. Ele disse: ‘Olha aqui, aqui que é o lugar’. Mas não se enxergava nada, era escuro. Então resolveram fazer fogo ali. E decidiram subir na árvore, um subindo e outro atrás, com uma tocha para iluminar. Eram mais ou menos uns 20 metros de altura, era uma árvore grande. E o bicho estava lá, sentado, cantando. Aí ele iluminou assim e viu. Aí o caçador  já estava pronto para flechar. E ele acertou bem no peito. Então o mutum caiu e esparramou a escuridão. Assim que o caçador fez para criar a noite e o dia. Então issso é muito importante.

A primeira queda do céu

O primeiro, o céu, foi Omama que levantou, como uma casa. Ele suspendeu o céu lá em cima e a terra, embaixo. Aí ele colocou uma pedra grande para segurar. Não é pau, não é árvore, ele colocou uma pedra. Mas ele não estava preparado, não estava com o pensamento bom para construir de uma vez só. Ele colocou mal colocado e mal apoiado. Ele fez o levantamento do céu e a terra embaixo para a gente morar. O povo yanomami começou a criar, casar, fazer filho, criou grupo, criou povo, e também criou pajé para cuidar. Então teve um acidente com o céu, porque, lá em cima, o vento é muito forte e ele não aguentou. A força do vento vem de dois lados, em cima e embaixo, e ficou balançando, balançando. Então a perna de pedra não aguentou, saiu do lugar e o céu caiu em cima do povo. Uns morreram e outros sumiram. Omama sobreviveu porque ele é o grande pajé e aguentou. E seus parentes também. Mas eles ficaram presos e não tinha buraco pra sair. O papagaio, que tem o bico forte, fez um buraco no céu, grande, do nosso tamanho, e todo mundo saiu. Omama, a mulher, filho, filha, primo, os que sobreviveram conseguiram sair. Aí Omama foi fazer de novo, mas ele já tinha um pensamento, um conhecimento melhor para não deixar o céu cair. Ele pensou: ‘Não tinha pensado direito, mas agora eu já sei como e vou fazer bem feito’. Eles foram, levantaram de novo o céu. E foi esse material bem forte que ele deixou porque a terra é muito pesada e o céu também é muito pesado. Aí eles colocaram um pé, assim, na frente e atrás para o céu não tremer e ficar balançando. Ele ficou bem mais seguro e não treme mais. Aqui, nesse lugar, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Boa Vista, Venezuela, Colômbia não balança. Mas lá, onde o céu termina, está mais fraco. Os pajés estão protegendo e tomando conta, os pajés yanomami e também outros pajés, parentes nossos – nós somos ligados a outros povos –, eles estão nos protegendo. Meus xapiri (espírítos), eles estão ali, protegendo para não deixar o céu cair outra vez, esse é o trabalho deles. Nós, yanomami, estamos muito preocupados, pensando que o céu vai cair de novo. Isso porque tiram o minério, que sustenta o céu, sustenta a terra. Mas o homem branco está tirando muito, para fazer peça de caminho de trem e não está preocupado com isso. Porque o homem da cidade não estudou. Isso é o perigo. Ele só estudou na escola para saber extrair a riqueza da terra, mas nós estudamos para não deixar acontecer como aconteceu. O céu só vai cair quando não tiver mais yanomami. Se os yanomami todos morrerem, com doenças, ameaça, se o homem branco chegar lá e matar todo mundo ou jogar bomba para acabar conosco. Estamos preocupados com a queda do céu. Agora, não vai cair, não, porque estamos vivos.


Fonte:http://impresso.em.com.br/app/noticia/todasemana/pensar/2016/01/15/interna_pensar,170478/estamos-todos-surdos.shtml



Postagens mais visitadas deste blog

XINGU : O PARQUE NACIONAL INDÍGENA DO XINGU

JARDIM VERTICAL : PAREDES VIVAS,COMO SOLUÇÃO PARA OS TEMPOS MODERNOS

PLANTAS COMPANHEIRAS E PLANTAS ANTAGÔNICAS : ALELOPATIA