O MUNDO EM 12 BILHÕES DE MÃOS


Professores do Tocantins mostram como fazer da escola o melhor lugar para construir a solidariedade


Sirlene ensina a fazer bonecas de corda. Renard desenha plantas de casas populares. Adão ministra palestras sobre reciclagem e coleta seletiva de lixo. Com mãos dedicadas e esforços conjugados, eles estão transformando a cidade de Guaraí, a 183 quilômetros de Palmas, num lugar melhor para viver. Não, não estamos falando de empresários, arquitetos ou consultores ambientais. Os três são alunos do Colégio Estadual Orquelina Torres que, envolvidos num projeto pedagógico, descobriram o significado de uma palavra que ganha cada vez mais força: a solidariedade.
"Acredito que muitos dos problemas que enfrentamos hoje, como a fome e os desequilíbrios ambientais, são conseqüência do individualismo exacerbado que domina a sociedade ocidental", diz Ricardo Balestreri, consultor nacional do Centro de Assessoramento a Programas de Educação para a Cidadania. A superação desses desafios, segundo ele, está no abandono da lógica do "cada um por si" e na adoção de um trabalho conjunto que envolva os 6 bilhões de habitantes do planeta.
Richard Pring, filósofo da Universidade de Oxford, na Inglaterra, vai mais longe: a escola é o melhor lugar para desenvolver essa consciência. "O professor tem de mostrar aos estudantes que o mundo é uma rede e que as pequenas ações têm, sim, um reflexo importante no todo", afirma ele, que esteve em São Paulo em abril participando do seminário Educação para a Cidadania, promovido pela Cultura Inglesa.
Ética
Tema: Solidariedade

Objetivo: Aprofundar o sentimento de pertencer a um grupo, interessar-se pela vida e pelos problemas dos outros e responsabilizar-se pela promoção do bem comum, colaborando para atingi-lo
Como chegar lá: Destaque a importância dessa postura nos dias de hoje, reconheça e valorize formas de ação solidária nas atitudes dos alunos, incentive trabalhos coletivos, intervenha em situações que revelem individualismo e crie ganchos entre os conteúdos trabalhados e os valores morais
Dica: Esteja sempre atento às propostas que leva para a classe, à forma de organizar o trabalho, às relações com os outros professores. As práticas internas da escola falam mais alto que qualquer discurso. Se toda a equipe se envolver no projeto, os resultados serão melhores
O que é, afinal, a solidariedade? Não se trata de um sinônimo moderno para voluntariado esta forma de ação é, na verdade, um de seus produtos. Também não é caridade, compaixão ou assistencialismo. Na verdade, ela vai além de tudo isso. Como já indica o radical da palavra, é enxergar o grupo como algo sólido, interessar-se pelos outros e fazer algo por eles. "Não é apenas de um sentimento, mas uma postura diante da vida, uma disposição para se colocar como alguém que não está sozinho", resume Balestreri.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais atribuem a essa postura um papel fundamental na construção da cidadania. Segundo o documento, ser cidadão não é apenas defender os próprios interesses e direitos, mas também atuar contra injustiças que alguém esteja sofrendo. "É importante perceber as causas das dificuldades que os outros enfrentam e refletir sobre o direito de todos a uma vida digna", diz o texto.
É comum esse espírito ser aguçado em momentos de crise, como durante uma enchente, uma seca prolongada ou um surto de dengue igual ao que vivemos hoje. O desafio do educador é transportar esse sentimento para a rotina do dia-a-dia e para o universo da escola provocando situações em que os alunos se ajudem mutuamente no processo de aprendizagem e incentivando a participação deles na definição das regras da sala, por exemplo.
Enxergar o outro
O Projeto Bairros, do qual participam Sirlene, Adão, Renard e outros estudantes, foi criado há dois anos com o objetivo de investigar a realidade de comunidades próximas. A família, como vai? E o bairro, como está? Eram essas as questões que os jovens, então na 8a série, tinham de responder.
Para isso, foram a campo e conversaram com as pessoas, escutaram o que cada um tinha a dizer, anotaram reivindicações, esclareceram dúvidas e fiscalizaram o funcionamento dos serviços públicos. "Essa aproximação é muito importante, porque sem conhecer e reconhecer o outro você não tem como respeitá-lo", afirma Terezinha Rios, consultora dos PCN de Ética e Cidadania.
A sensibilização é apenas a primeira parte do processo de construção da solidariedade. Para que ele se efetive, é imprescindível a existência de uma ação que se dá na medida das forças de cada um. Foi o que fez a turma do Orquelina Torres ao utilizar os saberes da educação para analisar as carências da vizinhança e propor melhorias (leia o quadro abaixo). Além disso, usaram seu conhecimento de causa para sanar, com as próprias mãos, uma das principais queixas levantadas na pesquisa: a falta de opções de lazer. Ensinaram crianças e adultos a construir brinquedos e a aproveitar melhor os espaços públicos para momentos de diversão. Outra iniciativa foi confeccionar livros infantis e promover sessões de leitura para os meninos do bairro. "Ninguém poderia fazer isso com mais propriedade", argumenta Sirlene Neonato, responsável pela oficina de bonecas.
A garotada ainda serviu de ponte entre os membros da comunidade e as autoridades. Uma comissão levou à prefeitura um relatório de mais de 100 páginas com dados precisos sobre o perfil dos moradores, a realidade dos bairros e as principais necessidades. Também entregou sugestões de melhoria para os locais visitados. "A pesquisa mostrou o que era prioridade e direcionou nossas ações", diz Aluísio Tenório Marques, o prefeito de Guaraí. "O jovem é puro e independente. Por isso, o retrato traçado por ele é fidedigno."
Na área da saúde, apontada como a mais deficiente, três medidas já foram tomadas: a instalação de três postos de pronto-atendimento, a contratação de médicos da família e a melhoria do atendimento médico-ambulatorial. A mobilização também apressou a reforma de algumas creches e a construção de duas quadras poliesportivas.
"Sem os meninos a gente não teria conseguido nada", agradece a moradora Valnizete da Costa Silva. Ela conta que, há alguns anos, foi pessoalmente à prefeitura reivindicar um posto de saúde, mas não teve sucesso. "Uma pessoa sozinha não consegue nada; um grupo tem mais força e mais visibilidade."
A vivência da solidariedade pode ser dividida em três etapas, ilustradas nesta seqüência de fotos
 O primeiro passo é aproximar-se da comunidade. Como fizeram os alunos do Colégio Estadual Orquelina Torres ao procurar os moradores dos bairros próximos para conhecer seus problemas e necessidades
 


 Em seguida, deve-se partir para a ação, utilizando conhecimentos escolares que colaborem para o bem-estar do grupo. Organizar leituras para as crianças das redondezas é um ótimo exemplo.
 


 Na terceira etapa, o... ...alcance dos atos precisa ser ampliado por meio de uma atuação política em Tocantins, os estudantes levaram críticas e sugestões ao prefeito ou de uma mobilização da sociedade capaz de influenciar pessoas e disseminar o espírito solidário

 

Lição para a vida
É claro que você não tem necessariamente de ir tão longe para estimular a solidariedade. Na própria escola não faltam oportunidades para isso quando um aluno fura a fila da cantina ou quando se recusa a ajudar um colega com um exercício, por exemplo. O segredo é ficar sempre atento às atitudes (positivas e negativas) e estar preparado para agir diante delas. "A criança aprende a ser solidária quando essa conduta é exigida ou louvada por outra pessoa", diz o especialista em filosofia da Educação José Sérgio Carvalho, da Universidade de São Paulo.
Ele explica que o ensino desse valor, como o de qualquer outro, só é possível pela ação, jamais pela explanação verbal. "Não se aprende pela discussão, vive-se pelo exemplo", analisa. Ou seja, não adianta discursar sobre a importância do trabalho em equipe se os professores competem entre si ou se as formas de avaliação reforçam o individualismo.
O fundamental, portanto, é compreender que os valores estão sendo transmitidos o tempo todo, dentro e fora da escola. E que as vivências nesses dois ambientes se completam: o que é semeado na sala de aula é levado para a vida lá fora e vice-versa. Madalena Silva, uma das coordenadoras do Projeto Bairros, conta que ficou surpresa com a mudança no comportamento dos garotos na classe depois do início do trabalho. "Eles passaram a discutir mais e a ajudar uns aos outros", observa. Além disso, cresceu o respeito pelo colégio: "Hoje, todos se sentem parte da instituição e zelam por ela".
Quanto ao trabalho, que havia sido programado para durar alguns meses, parece que nunca mais vai terminar. "A idéia, aliás, é que nunca termine", conta outra professora, Venes Mar Lopes. E que o espírito solidário acompanhe esses jovens na faculdade, na profissão, por toda a vida. Nas pequenas e grandes ações. Renard Aguiar Cruz, que hoje está no Ensino Médio, descobriu a vocação para a arquitetura. Passa tardes no computador desenhando plantas de casas populares, praças e hospitais, que pretende apresentar ao prefeito. "Estou encontrando o meu espaço para ajudar a comunidade", diz.
Trabalho solidário, disciplina por disciplina
Conta Platão, no livro Diálogos, que Sócrates andava inquieto tentando descobrir se haveria algum homem capaz de ensinar valores (cidadania, justiça, solidariedade...). "Quem é o mestre nas qualidades de homem e de cidadão?", perguntava a todos. Certo dia, um de seus adversários, Protágoras, chegou com uma resposta. "Desde que a criança compreende o que lhe dizem, a mãe, a ama, o preceptor e o próprio pai conjugam esforços para que ela se desenvolva da melhor maneira possível", introduziu, tirando do exemplo a lição: "Todo mundo é professor de virtudes, na medida de suas forças."
Levar esse princípio para o universo escolar significa perceber que o trabalho com valores não cabe a um professor específico, mas a toda a escola, a todo momento. O sucesso obtido no Colégio Orquelina Torres, por exemplo, deve-se em grande parte ao comprometimento da equipe.
Cada professor contribuiu em sua área de conhecimento. Nas aulas de Geografia, os alunos discutiram os índices sociais, econômicos, culturais e políticos que seriam levantados na pesquisa de campo. Nas de Língua Portuguesa, produziram os questionários e relatórios.
E nas de Biologia organizaram palestras para a população sobre os principais problemas de saúde e higiene detectados.
Na Matemática, encontraram as ferramentas para tratar os dados, calculando porcentagens e áreas de lotes e construindo planilhas e gráficos. Sob a orientação da professora de História, foram buscar o passado dos bairros estudados e a de Arte os ajudou a projetar, no papel e em maquetes, áreas de lazer para cada um deles. Uma soma de valores que fez a diferença.
Quer saber mais?
Colégio Estadual Orquelina Torres, Av. Araguaia, 1055, CEP 77700-000, Guaraí, TO, tel. (63) 464-2550
BIBLIOGRAFIA
O Juízo Moral na Criança, Jean Piaget, 304 págs., Ed. Summus, tel. (11) 3865-9890, 37 reais

Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas (adapt. de José Angeli), 96 págs., Ed. Scipione, tel. (11) 3277-1788, 12 reais
INTERNET
No site
www.dhnet.org.br, você encontra uma enciclopédia digital sobre Direitos Humanos


Fonte:Priscila Ramalho, de Guaraí (TO)-Publicado em NOVA ESCOLAEdição 152, Maio 2002,

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