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O chão está cedendo: por que grandes cidades do mundo estão afundando? Entenda
Fenômeno pode ser causado por processos naturais e atividades humanas, como a extração de água subterrânea, e afetar edifícios, infraestrutura urbana e drenagem
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27/08/2026 07h05 Atualizado há 15 horas
O movimento do solo costuma passar despercebido no cotidiano, mas pode causar sérios danos a edifícios, ruas e à infraestrutura urbana. Esse processo é conhecido como subsidência — o afundamento gradual do terreno provocado por fatores geológicos e por ações humanas, como a exploração intensa de águas subterrâneas.
Neste ano, o fenômeno ganhou repercussão após o mapeamento feito por satélite da NASA na Cidade do México, que revelou que determinadas regiões da capital chegam a afundar até 2 cm por mês.
“O rebaixamento do solo, a médio e a longo prazo, pode causar impactos em ruas, pontes e túneis, sem contar rachaduras e o colapso de prédios e casas. Os impactos na drenagem urbana podem ser profundos, danificando estruturas tanto superficiais quanto subterrâneas”, descreve Jefferson de Lima Picanço, professor do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
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Segundo ele, a subsidência reduz a capacidade de escoamento dos canais naturais e artificiais, deixando as cidades mais suscetíveis a inundações e à entrada da água do mar.
O que faz o solo afundar?
Da América à Ásia, diferentes fatores provocam a subsidência. “Há causas naturais, como a ocorrência de falhas geológicas, o rebaixamento tectônico e a compactação e consolidação de camadas de sedimentos na subsuperfície. Entre as causas antrópicas, a mais importante é a extração de fluidos, como água subterrânea, óleo e gás”, diz Jefferson.
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A Cidade do México, por exemplo, foi construída sobre lagos. A demanda hídrica levou à extração de água subterrânea, provocando a compactação do solo.
Na Ásia, a subsidência também está associada à extração de água subterrânea, além do peso das estruturas urbanas em cidades densamente povoadas. Segundo a Comissão Econômica e Social das Nações Unidas para a Ásia e o Pacífico (ESCAP), o afundamento do solo é frequentemente descrito como uma “crise silenciosa”, por ser um risco de evolução lenta e em grande parte invisível até que seus impactos se tornem graves.
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No continente, algumas das cidades que passam pelo fenômeno são Jacarta, na Indonésia, com taxa média de afundamento de 13,7 mm/ano; Tianjin, na China, com cerca de 13,5 mm/ano; e Bangkok, na Tailândia, com 8,5 mm/ano.
O estudo A subsidência mais do que duplica a subida do nível do mar hoje ao longo de costas densamente povoadas, publicado pela revista Nature, já relaciona o movimento de afundamento ao aumento do nível do mar.
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Segundo os pesquisadores, 71% da população costeira mundial vive em regiões que estão afundando. Nos locais onde esse fenômeno ocorre, a taxa de aumento relativo do nível do mar pode dobrar, chegando a cerca de 6 mm.
"A subsidência causa cerca de metade da subida do nível relativo do mar que é atualmente sentida pelas populações costeiras. Existe um grande potencial para reduzir essa subida por meio da mitigação da subsidência induzida pelo homem, como a regulação da extração de água subterrânea”, escreveram os cientistas na pesquisa.
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A extração de materiais do subsolo também pode provocar subsidência. Um exemplo é a exploração de sal-gema realizada durante décadas em Maceió, AL. Associado à atividade da Braskem, o fenômeno provocou o afundamento do solo e danos em áreas dos bairros Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol. O processo levou à desocupação de milhares de imóveis e afetou aproximadamente 60 mil pessoas.
Em Nova Orleans, nos Estados Unidos, o solo afunda por uma combinação de fatores naturais e provocados pela ação humana. A cidade está sobre sedimentos jovens e pouco consolidados. A compactação desses sedimentos contribui para a subsidência, processo que pode ser acelerado pela extração de água subterrânea e de petróleo.
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Além disso, estudos indicam que movimentos tectônicos profundos podem responder por uma parcela significativa do rebaixamento do terreno em algumas áreas da cidade, mesmo onde não há extração de água, petróleo ou gás.
O afundamento no dia a dia
Apesar de a subsidência ser um fenômeno gradual, o acúmulo a longo prazo pode prejudicar as estruturas dos municípios afetados.
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“Os afundamentos que ocorrem em uma cidade afetam os moradores de várias formas. A mais importante delas se traduz na falta de segurança das residências e edifícios, obrigando a saída dos moradores pelo risco de desabamentos, de forma provisória ou permanente”, diz Paulo A. C. Luz, especialista em geotecnia e professor da Escola de Engenharia (EE), da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Segundo ele, a subsidência diferencial pode prejudicar a funcionalidade das edificações, provocando, por exemplo, o emperramento de portas e janelas, o desnivelamento de pisos e a dificuldade de escoamento da água para ralos e sistemas de drenagem.
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A subsidência também pode comprometer a drenagem urbana, afetando estruturas superficiais e subterrâneas. Com o rebaixamento do terreno, canais naturais e artificiais podem perder capacidade de escoamento, aumentando a vulnerabilidade das cidades a inundações e à entrada da água do mar.
“A qualidade das águas pode mudar e até sofrer salinização”, pontua Jefferson. Há, ainda, o custo econômico com os gastos para fazer manutenção ou reparos.
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É possível evitar ou reduzir a subsidência?
A redução da subsidência e de seus impactos depende de leis que controlem o uso do solo nas cidades. Nesse sentido, uma das medidas é controlar a construção de edifícios altos em locais com subsolo argiloso mole, que sofrerá recalques por adensamento. “Obrigando nesses casos que as fundações dos edifícios sejam profundas, apoiadas em solo firme, que estão abaixo das camadas de argila”, explica Paulo.
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É importante, ainda, que seja feita a boa gestão da água subterrânea. O mesmo controle deve acontecer com as atividades de mineração.
Por exemplo, em Tóquio, no Japão, ocorreu uma regulamentação rigorosa para a exploração de aquíferos, o que reduziu as taxas de rebaixamento do solo. “Hoje, o abastecimento de água da cidade é feito por meio de reservatórios de água superficiais”, conta o professor da Unicamp.
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Para facilitar a diminuição da extração de água subterrânea, é possível criar pequenos reservatórios de retenção de água a céu aberto, para substituir o uso de grandes galerias subterrâneas.
Outro método ocorre pela recarga artificial dos aquíferos. Shanghai, na China, injeta água do rio Yangtzé de volta para o solo usando antigos poços de bombeamento. O ideal é que a medida seja combinada com a redução da extração da água subterrânea.
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Além das medidas para reduzir a própria subsidência, algumas estratégias ajudam a diminuir seus impactos. Uma delas está na construção de cidades-esponja. O conceito, criado pelo arquiteto paisagista chinês Kongjian Yu, consiste em criar pavimentos permeáveis, espaços verdes, jardins de chuva e sistemas de drenagem pluvial modernizados.
“A cidade aumenta a absorção de água e melhora sua qualidade, além de aumentar sua resiliência a eventos climáticos extremos por meio de um planejamento urbano cuidadoso”, explica Jefferson.
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Segundo os especialistas, cidades como Shenzhen e Chongqing, ambas na China, e San Salvador, em El Salvador, têm adotado a medida.
Do ponto de vista arquitetônico e de infraestrutura, entre as orientações estão o monitoramento dos edifícios, a utilização de fundações profundas e o uso de estruturas mais flexíveis, que permitem pequenos afundamentos sem a criação de fissuras. Também podem ser utilizadas redes flexíveis de saneamento, que permitem que tubulações de abastecimento de água e coleta de esgoto acompanhem os movimentos do solo sem sofrer rupturas.
Fonte:https://revistacasaejardim.globo.com/urbanismo/noticia/2026/08/subsidencia-por-que-cidades-estao-afundando.ghtml
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